Quando falamos em prótese total do quadril, muitas pessoas imaginam que existe apenas uma forma de realizar a cirurgia. Na realidade, o cirurgião pode chegar à articulação por diferentes caminhos, chamados de acessos cirúrgicos. Entre eles está o acesso anterior direto, que recebe esse nome porque a articulação é abordada pela parte da frente do quadril.
Um acesso que preserva a musculatura
Diferentemente de outras técnicas, no acesso anterior utilizamos um intervalo natural existente entre os músculos. Portanto, não é necessário cortar os músculos e tendões responsáveis pela movimentação e pela estabilidade do quadril.
Essa preservação muscular pode proporcionar alguns benefícios, principalmente nas primeiras semanas depois da operação:
● Menor dor no pós-operatório inicial;
● Recuperação funcional potencialmente mais rápida;
● Maior facilidade para caminhar e retomar algumas atividades cotidianas;
● Menor necessidade restrições de movimento.
Trata-se portanto de um acesso minimamente invasivo.
Menor risco de deslocamento da prótese
O deslocamento, também chamado de luxação, ocorre quando a cabeça da prótese sai de dentro do componente acetabular. É uma complicação pouco frequente, mas importante após uma artroplastia total do quadril.
Como o acesso anterior preserva grande parte dos músculos e tendões posteriores do quadril, que participam da estabilidade da articulação, diversos estudos observacionais encontraram taxas muito baixas de luxação com essa técnica. Muitas pesquisas apontam menor risco em comparação com o acesso posterior tradicional.
Melhor controle do comprimento das pernas
Outro aspecto importante da prótese de quadril é restaurar o comprimento dos membros inferiores com a maior precisão possível.
No acesso anterior, o paciente é operado em decúbito dorsal, isto é, deitado de costas. Essa posição permite comparar diretamente as duas pernas durante o procedimento e facilita a utilização da fluoroscopia, um aparelho de radiografia que produz imagens em tempo real dentro da sala cirúrgica.
Com a fluoroscopia, o cirurgião controla durante a operação:
● O comprimento das pernas;
● A altura e o posicionamento dos componentes;
● O tamanho e o encaixe da prótese;
● A inclinação e a orientação do componente acetabular;
● O offset, que corresponde à distância lateral do fêmur em relação à bacia.
Estudos recentes sugerem que o acesso anterior pode reduzir a frequência de diferenças maiores de comprimento entre as pernas, especialmente quando associado ao controle radiográfico durante a cirurgia.
Na minha experiência, a combinação entre o paciente deitado de costas, a possibilidade de comparar os dois membros e o uso da fluoroscopia proporciona um controle muito preciso da reconstrução do quadril. Isso me permite buscar, com maior fidelidade, o equilíbrio do comprimento das pernas e da biomecânica.
É importante lembrar, contudo, que nem sempre é possível ou seguro deixar os membros absolutamente idênticos. Em alguns casos, deformidades antigas, diferenças prévias, contraturas musculares ou a necessidade de aumentar a estabilidade da prótese exigem pequenas adaptações. A prioridade é reconstruir um quadril estável, funcional e seguro.
Menor cicatriz cirúrgica
Um dos aspectos frequentemente percebidos pelos pacientes é o tamanho da cicatriz. No acesso anterior, a incisão cirúrgica costuma ser menor quando comparada a outras abordagens do quadril. Em geral, a cicatriz no acesso anterior varia em torno de 7 a 9 cm, enquanto em técnicas tradicionais, como o acesso posterior ou lateral, ela costuma ficar entre 10 e 14 cm, dependendo da complexidade do caso e da biotipologia do paciente. Além de ser menor, a cicatriz também tende a ficar mais anterior e menos exposta a áreas de pressão, o que pode contribuir para um aspecto estético mais favorável ao longo do tempo. Além disto é possível orientar a cicatriz em uma direção mais alinhada com as linhas de força da pele favorecendo uma cicatriz mais suave, a chamada incisão tipo biquíni.
O acesso anterior é melhor para todos?
Não existe um único acesso cirúrgico ideal para todas as pessoas e para todas as situações. O acesso anterior possui vantagens importantes, mas também apresenta uma curva de aprendizado e riscos específicos.
A escolha deve considerar o diagnóstico, a anatomia do paciente, cirurgias anteriores, o tipo de prótese e a experiência do cirurgião com a técnica.
Mais importante do que procurar simplesmente “o melhor acesso” é compreender qual estratégia oferece maior segurança e precisão para cada paciente.
Tendo realizado milhares de cirurgias por diversos acessos e mais de 300 artroplastias especificamente pelo acesso anterior, é minha opinião que o acesso anterior direto é a melhor opção para a artroplastia total do quadril para a maioria dos pacientes. Ele combina preservação muscular, possibilidade de recuperação inicial mais rápida, menor cicatriz, excelente estabilidade e um controle intraoperatório muito preciso do posicionamento da prótese e do comprimento dos membros.



